1903: a primeira camisa do Grêmio e as origens do uniforme tricolor

 

A definição do primeiro uniforme do Grêmio

No dia 30 de setembro de 1903, pouco mais de duas semanas após sua fundação, o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense realizou uma reunião decisiva para estabelecer as cores e o desenho do seu primeiro uniforme oficial. A ata do encontro descreve com riqueza de detalhes como se apresentariam os jogadores em campo.

Ficou definido que os players utilizariam boné, calções e meias pretas, gravata branca, botinas claras e camisas com listras horizontais em azul e havana, além de uma faixa branca na cintura. Curiosamente, o uniforme não trazia ainda o distintivo do clube, embora este já estivesse esboçado à época.


O boné: proteção e costume do futebol primitivo

A presença do boné no uniforme chama atenção do torcedor contemporâneo, mas era algo absolutamente comum no futebol do início do século XX. Sua função era prática: proteger a cabeça dos atletas, especialmente durante as cabeçadas.

As bolas da época eram fechadas com tiras de couro, que, após infladas, ficavam expostas e podiam causar ferimentos. Assim, o boné cumpria um papel essencial de segurança, além de refletir os costumes esportivos herdados da Inglaterra.


Influência inglesa e a herança alemã

Rastrear a origem exata do desenho e das cores da primeira camisa gremista não é tarefa simples, mas a análise histórica permite algumas conclusões consistentes. É consenso que o futebol inglês exerceu forte influência sobre a fundação do Grêmio, ainda que de forma indireta.

O futebol chegou ao Brasil por São Paulo, trazido por Charles William Miller, e essa influência chegou a Porto Alegre por meio de Cândido Dias da Silva, um dos líderes do processo de fundação do clube. No entanto, grande parte dos fundadores do Grêmio era formada por imigrantes alemães ou descendentes, especialmente oriundos da região de Hamburgo.


As cores do Hamburgo e o surgimento do Tricolor

O clube alemão Hamburger Sport Verein tinha — e mantém até hoje — como cores oficiais o azul, o preto e o branco. Não por acaso, essas tonalidades aparecem desde o primeiro uniforme do Grêmio.

Segundo registros históricos, a cor havana foi incorporada por insistência de Cândido Dias, provavelmente por sua semelhança com o couro das bolas de futebol da época. Um simbolismo curioso para um clube que, como se costuma dizer, nasceu de uma bola.


Um curioso “acaso do destino”

O vínculo cromático entre Grêmio e Hamburgo atravessou décadas de forma quase mística. As cores do Imortal Tricolor foram herdadas do clube alemão e, por um incrível acaso do destino, o Hamburgo foi o adversário do Grêmio na final do Mundial de 1983, exatos 80 anos após a fundação gremista.

Curiosamente, naquele jogo histórico, o Hamburgo não utilizou seu uniforme tradicional, vestindo camisas brancas e calções vermelhos — um contraste com a fidelidade cromática mantida pelo Grêmio ao longo de sua história.


As listras horizontais e a possível influência inglesa

O uso de listras horizontais também encontra respaldo no padrão estético do futebol inglês do século XIX. Muitos clubes britânicos adotavam esse modelo, o que reforça a influência inglesa no desenho do uniforme gremista.

Após extensa pesquisa em uniformes históricos de clubes da English League fundados antes de 1903, apenas um apresentou semelhança direta: o Rotherham, fundado em 1870, que utilizou camisa bicolor em azul e havana entre 1884 e 1885 — período coincidente com os estudos de Charles Miller na Inglaterra.

Ainda assim, a hipótese mais aceita é a de uma coincidência histórica, fruto da convergência entre a preferência de Cândido pela cor havana e a influência alemã do azul.


A primeira foto histórica do Grêmio

Embora nenhum jogo tenha sido disputado em 1903 — ano dedicado à organização do clube e à assimilação das regras —, a primeira fotografia oficial da equipe gremista foi registrada ainda naquele período.

A imagem, originalmente em preto e branco e posteriormente colorizada, não teve apenas caráter documental. Seu objetivo era estratégico e simbólico, algo que se revelaria com mais clareza nos capítulos seguintes da história do clube.


Notas históricas importantes

1) Existe referência a uma possível inspiração no uniforme do Exeter City, citada no livro Grêmio, Nada Pode Ser Maior, de Eduardo Bueno (Peninha). No entanto, essa associação se refere ao segundo uniforme do clube, de 1904, e não ao de 1903.

2) O nome oficial da entidade sempre foi Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, sendo “Grêmio” o termo que designa associação, e “Porto Alegrense” o nome propriamente dito. A popularização do termo “Grêmio” ocorreu para diferenciar o clube do rival Fussball Club Porto Alegre, evitando confusões à época.

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