Irno Lubke: o goleiro que marcou a história do Grêmio nos anos 60

 


Irno Lubke: o goleiro que marcou a história do Grêmio nos anos 60

A chegada de um goleiro que já trazia história

Quando o goleiro Suli deixou o Grêmio no final de 1960 para defender o São Paulo, o clube precisava decidir com cuidado quem ocuparia uma posição tão simbólica em um elenco que vinha de cinco títulos gaúchos consecutivos. Embora Henrique, reserva de Germinaro desde 1959, estivesse no grupo, a direção tricolor optou por uma contratação experiente: Irno Augusto Lubke, então com 26 anos, destaque do Cruzeiro de Porto Alegre.

Irno não era um goleiro qualquer. Nascido em Encantado, em 23 de dezembro de 1934, ele havia construído sua trajetória entre clubes do interior, destacando-se pelo Veterano de Carazinho antes de se projetar no Cruzeiro da capital. Ali, suas atuações despertaram a atenção da Seleção Brasileira, que o convocou para jogos preparatórios à Copa de 1962. Apesar de não ter sido levado ao Mundial, a visibilidade nacional consolidou seu nome como um goleiro técnico, firme e de personalidade.

Era exatamente esse perfil que o Grêmio buscava.

Um Grêmio vitorioso, mas prestes a enfrentar turbulências

O clube vivia um período de hegemonia regional: 1956, 1957, 1958, 1959 e 1960 haviam coroado uma era dourada. A responsabilidade que caía sobre Irno, portanto, era gigantesca. Ele chegava para integrar um sistema defensivo sólido, acostumado a decisões, com pressão permanente por títulos.

Mas o ano de 1961 seria diferente. Mesmo com elenco forte, o Grêmio enfrentou tropeços, mudanças internas e um ambiente de tensão que comprometeria a busca pelo Hexacampeonato Gaúcho.

Irno estreou oficialmente pelo clube no dia 30 de julho de 1961, diante do Rio-Grandense, no Estádio Torquato Pontes. A meta gremista, desde então, teria nele um guardião seguro, ainda que o time não vivesse sua fase mais estável.



O início das dificuldades e o primeiro Gre-Nal de 1961

O primeiro clássico da temporada ocorreu em 10 de setembro, com derrota por 2 x 1. Henrique, e não Irno, foi o goleiro naquele Gre-Nal — mas o resultado marcou o ponto de virada de um ano turbulento. As tensões internas aumentaram, culminando na saída do técnico Foguinho após divergências com João Leitão de Abreu, diretor de futebol. Foguinho — irônico destino — assumiria justamente o Cruzeiro de Porto Alegre, o ex-clube de Irno.

Enquanto isso, o Grêmio oscilava e via o Hexa escapar lentamente.

A honra em jogo e a necessidade de lutar até o fim

No dia 15 de novembro, o Grêmio enfrentou o Cruzeiro em um duelo decisivo para manter viva a chance de ser campeão. Era necessário vencer o Gre-Cruz para chegar ao Gre-Nal final em condições matemáticas de conquistar o título. Sob comando de Foguinho, o Cruzeiro venceu por 1 x 0 — uma derrota dolorosa, que tirou as ambições gremistas.

Mesmo assim, o Tricolor seguiu adiante. Não havia mais título em disputa, mas havia algo maior: a honra do clube. Foi nesse espírito que Irno viveu o momento mais emblemático de sua passagem pelo Grêmio.

O Gre-Nal lendário de 10 de dezembro de 1961 — virada com um a menos

Irno foi o goleiro do Grêmio naquele clássico histórico. O jogo, carregado de simbolismo, seria lembrado por décadas.

A história de que o Grêmio precisa "fazer dois para valer um" também aparece ali: Juarez marcou um gol legítimo ainda no primeiro tempo, mas o árbitro Omar Rodrigues anulou sem explicação. Como se não bastasse, o mesmo árbitro expulsou Altemir, deixando o Tricolor com 10 jogadores.

Na etapa final, a situação piorou: Alfeu marcou um gol no início e outro aos 20 minutos, abrindo 2 x 0 para o adversário.

Mas já naquela época, a imortalidade gremista não deixava margem para desistência.

Aos 24 minutos, Nadir descontou. O gol mudou completamente o clima no estádio — a confiança adversária derreteu sob o calor de dezembro. Aos 40, Nadir cruzou e Marino empatou de cabeça. E, aos 45 minutos, Juarez — o mesmo que teve um gol mal anulado — decretou a virada por 3 x 2.

O Grêmio, mesmo sem disputar mais o título, derrubou o rival no último jogo da competição. Um nocaute simbólico, uma afirmação de caráter. E Irno estava lá, defendendo o arco e participando de uma das reviravoltas mais emblemáticas da história do clube.

A imagem final do clássico também virou lenda: o vendedor de massas Paulo Sant’Ana entrando no gramado vestido de Papai Noel azul.

A temporada de 1962 e a disputa pela titularidade

No ano seguinte, Irno perdeu espaço para Henrique, que assumiu a posição com regularidade. Mesmo assim, Irno participou do elenco campeão da Taça Legalidade (Sul-Brasileiro de 1962) e do Gauchão de 1962, somando títulos importantes ao seu currículo.

Ao todo, atuou 45 vezes pelo Grêmio até março de 1963, quando encerrou sua passagem pelo clube.


A fotografia misteriosa e a construção da lenda

Ao longo dos anos, uma fotografia circulou entre torcedores e pesquisadores como sendo de Irno. Mais tarde surgiram dúvidas de que o homem retratado seria outro — possivelmente alguien chamado Marciano. A incerteza transformou Irno num personagem quase mítico, envolto em mistério. Mesmo sem confirmação, o rosto da foto representou simbolicamente o espírito aguerrido do período.

Seleção Brasileira: a vitrine nacional

Mesmo antes de chegar ao Grêmio, Irno já carregava no currículo sua passagem pela Seleção Brasileira. Em 1960, disputou três jogos durante o Campeonato Panamericano, sendo vice-campeão. A convocação, somada ao trabalho no Cruzeiro, o colocou no radar dos grandes clubes — e abriu portas para Santos e Grêmio.

Outros clubes da carreira

Irno teve trajetória marcada por várias camisas importantes:

  • São José de Lajeado (amador)

  • Glória (amador)

  • Veterano de Carazinho

  • Cruzeiro de Porto Alegre

  • Santos — onde foi campeão paulista em 1960

  • Grêmio — entre 1961 e 1963

  • Pelotas — campeão citadino e ídolo na cidade

Por onde passou, foi reconhecido pela postura firme e pela disposição para enfrentar qualquer desafio.

Uma despedida cedo demais

Após encerrar sua carreira no Pelotas, Irno faleceu muito jovem, em 23 de maio de 1969, na cidade de Carazinho, aos apenas 34 anos. Sua morte precoce interrompeu uma trajetória que ainda poderia render muitos capítulos no futebol gaúcho.

O legado de Irno Lubke no Grêmio

Irno Lubke não foi apenas um goleiro. Foi um símbolo de um período de transição no Grêmio — um tempo em que o clube oscilava entre a glória e a turbulência, mas nunca abria mão da sua identidade.

Sua participação no Gre-Nal de 1961, sua postura nos jogos duros, sua história de luta e sua carreira marcada por coragem compõem o que o torcedor gremista reconhece como essencial: entrega, resistência e alma tricolor.

Irno vive, até hoje, na memória dos clássicos, no orgulho do passado e na história do Imortal.

🔵 Sobre o Acervo Grêmio Copero

Este conteúdo faz parte da restauração histórica do antigo site Grêmio Copero , preservando textos, registros e memórias do futebol tricolor que marcaram época na internet.

Hoje, o projeto segue vivo e ampliado através do Grêmio Copero Histórico , que é o sucessor oficial desta iniciativa e continua produzindo conteúdo atualizado, análises, história e cobertura completa do Grêmio.


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