Mendonça no Grêmio: a breve passagem de um grande camisa 10 em meio ao ano mais sombrio do Olímpico
Em meio ao ano mais traumático da história do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, um nome consagrado do futebol brasileiro passou quase despercebido pela memória coletiva tricolor. Milton da Cunha Mendonça, ídolo eterno do Botafogo e um dos camisas 10 mais técnicos de sua geração, vestiu a camisa gremista em 1991 numa tentativa extrema de frear um destino que, àquela altura, já parecia selado.
Foram apenas quatro jogos e um único gol. Estatisticamente irrelevante. Historicamente, porém, carregado de significado. A curta passagem de Mendonça pelo Olímpico é um retrato fiel do colapso estrutural, técnico e institucional vivido pelo clube naquele ano.
Um craque veterano em meio ao caos gremista
Quando Mendonça desembarcou em Porto Alegre, tinha 35 anos e um currículo respeitável no futebol brasileiro. Dono de técnica refinada, leitura de jogo acima da média e chute preciso, construiu sua reputação principalmente no Botafogo, onde foi protagonista entre as décadas de 1970 e 1980.
Sua chegada ao Grêmio, no entanto, não fazia parte de um projeto esportivo estruturado. Diferentemente de contratações planejadas, Mendonça foi um recurso emergencial, quase simbólico, em um clube que buscava soluções imediatas para um problema que já se mostrava profundo.
À frente da gestão estava o presidente Rafael Bandeira dos Santos, que, pressionado por resultados e por um campeonato que escapava rodada após rodada, passou a apostar em nomes experientes como tentativa de reação. Mendonça foi uma dessas apostas tardias — assim como outras decisões que evidenciavam um Grêmio sem planejamento, sem rumo e sem estabilidade interna.
O único gol: Aflitos, 7 de abril de 1991
O único gol de Mendonça com a camisa do Grêmio aconteceu longe de Porto Alegre. Foi no Estádio dos Aflitos, em Recife, no dia 7 de abril de 1991, contra o Náutico, pelo Campeonato Brasileiro.
A derrota por 3 a 1 resume com precisão aquele momento do clube. Mendonça marcou o gol gremista, mas o placar jamais esteve sob controle. Não houve comemoração efusiva, nem sensação de virada iminente. Foi um gol solitário, quase melancólico, em meio a uma campanha que caminhava de forma inexorável para o rebaixamento.
Hoje, esse gol carrega mais valor simbólico do que esportivo. Representa a última tentativa de reação de um gigante já profundamente ferido, que tentava se sustentar com lampejos individuais enquanto o coletivo desmoronava.
1991: do auge recente ao fundo do poço
Para quem não viveu aquele período, é difícil compreender como o Grêmio chegou a 1991 em tal situação. O contraste é brutal. O clube vinha de um hexacampeonato gaúcho (1985–1990) e de um terceiro lugar no Brasileirão de 1990, consolidando-se como uma das forças nacionais.
Apesar disso, os sinais de desgaste já estavam presentes. Problemas financeiros, elenco envelhecido, decisões administrativas equivocadas e falta de renovação técnica começaram a cobrar seu preço. O jornal Zero Hora, ainda no início da temporada, chegou a alertar para o risco de colapso estrutural — um aviso ignorado por grande parte da torcida e da própria direção.
Os números daquele ano são devastadores:
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Rebaixamento no Campeonato Brasileiro, com apenas 3 vitórias em 19 jogos
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Perda da hegemonia no Campeonato Gaúcho
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Eliminação na Supercopa
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Vice-campeonato da Copa do Brasil, perdido para o Criciúma após dois empates (1×1 no Olímpico e 0×0 no Heriberto Hülse)
Esse último episódio, em especial, escancarou o paradoxo de 1991: um time capaz de chegar a uma final nacional, mas estruturalmente frágil demais para sustentar-se ao longo da temporada.
O golpe final em Niterói
A queda foi sacramentada no dia 19 de maio de 1991, contra o Botafogo, no estádio Caio Martins, em Niterói. A derrota confirmou matematicamente o rebaixamento e colocou o Grêmio, pela primeira vez em sua história, na Série B do Campeonato Brasileiro de 1992, ao lado do Vitória.
Para muitos torcedores, aquele jogo simbolizou o fim de uma era. O Grêmio dominante do Sul do país, respeitado nacionalmente, simplesmente havia deixado de existir.
Mendonça como símbolo de um Grêmio sem chão
A passagem de Mendonça pelo Grêmio não deve ser analisada apenas pelos números frios. Ela representa um clube que, em desespero, tentou sobreviver por meio de remendos, apostando em nomes consagrados quando o problema era muito mais profundo do que qualquer reforço individual poderia resolver.
Não foi culpa de Mendonça. Nunca foi. Ele chegou quando o destino já estava praticamente escrito. Sua presença, hoje, funciona como um marco histórico silencioso: o último brilho isolado antes da queda definitiva.
Relembrar essa história não é abrir feridas, mas compreender o processo da queda para entender a reconstrução. O fundo do poço de 1991, paradoxalmente, foi o ponto de partida para o Grêmio que aprenderia a se reinventar, a valorizar estrutura, identidade e resiliência — características que, anos depois, voltariam a definir sua grandeza.
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