| Jogadores do Grêmio antes da partida contra o Emelec no Equador |
Um Grêmio além das fronteiras: o início de uma identidade internacional
No final de 1953 e início de 1954, o Grêmio viveu uma das experiências mais marcantes de sua história fora do Brasil. Durante mais de um mês, o Imortal excursionou por México, Equador e Colômbia, enfrentando clubes tradicionais e até seleções nacionais, em uma época em que viagens internacionais eram raras, longas e carregadas de desafios logísticos.
A excursão começou em 13 de dezembro de 1953, diante do Necaxa, e só terminou semanas depois, já em solo colombiano. Mais do que resultados, o giro representou a afirmação do Grêmio como clube competitivo fora do país, algo que ajudaria a moldar, décadas depois, a identidade copeira do Tricolor.
Domínio no México e jogos diante de grandes públicos
O México foi o principal palco da excursão. Em apenas 10 dias, o Grêmio disputou quatro partidas contra equipes mexicanas, mantendo-se invicto e atraindo atenção crescente da imprensa local.
O auge dessa fase ocorreu em 27 de dezembro de 1953, um domingo, quando o Tricolor enfrentou o Deportivo Toluca, na Cidade do México, no moderno Estádio Olímpico dos Insurgentes, diante de 60 mil torcedores — a maior presença de público da excursão em terras mexicanas.
A expectativa era enorme. O Grêmio já havia encarado até a Seleção Mexicana e seguia sem derrotas, o que elevou ainda mais o peso do confronto.
O jogo contra o Toluca: equilíbrio, drama e polêmica
Sob o comando de Telêmaco Frazão de Lima, personagem lendário da história gremista, o Grêmio entrou em campo com uma formação experiente e técnica, misturando jogadores consagrados e nomes que marcariam época.
Como em tantas outras ocasiões naquela excursão, o Tricolor sofreu forte pressão inicial. O zagueiro Pipoca e o goleiro Sérgio Moacyr se destacaram nos primeiros minutos, segurando o ímpeto mexicano, situação agravada pela saída precoce do centroavante Victor, lesionado aos 20 minutos.
Com o passar do tempo, o jogo se equilibrou, muito graças à categoria de Noronha, recém-retornado ao clube após grande passagem pelo São Paulo e integrante da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1950.
Aos 44 minutos do primeiro tempo, Noronha cobrou falta com perfeição, encontrando Tesourinha, que marcou de cabeça, colocando o Grêmio em vantagem. O lance veio pouco depois de um pênalti claro não marcado, quando o goleiro Tello derrubou Camacho. O intervalo chegou com 1 a 0 para o Imortal.
Segundo tempo intenso e um empate com gosto amargo
O Toluca promoveu várias alterações e passou a pressionar ainda mais. Um dos jogadores que entraram, Candia, teve papel decisivo: aos 12 minutos, acertou a trave e, no rebote, empatou a partida.
O Grêmio respondeu com mudanças próprias. Uma delas foi decisiva: Itamar, poupado inicialmente, substituiu Torres e, aos 25 minutos, recolocou o Tricolor em vantagem: 2 a 1.
Pouco depois, o goleiro Sérgio Moacyr se lesionou, forçando a entrada de Wilson. Já aos 43 minutos, em cobrança de escanteio, Wilson saiu para socar a bola, mas sofreu carga clara do atacante Carus. A arbitragem nada marcou, a bola entrou e decretou o empate em 2 a 2.
O apito final veio logo em seguida, encerrando uma partida marcada por decisões controversas e frustração gremista.
A excursão segue e a polêmica explode no Atlante
Dias depois, nova controvérsia. Na derrota por 1 a 0 para o Atlante, o presidente gremista Saturnino Vanzelotti foi contundente ao acusar a arbitragem de parcialidade.
Segundo Vanzelotti, o árbitro Gonzalez Palafox favoreceu os mexicanos e permitiu que o jogo se tornasse violento, mesmo havendo árbitros ingleses disponíveis para conduzir a partida. O dirigente ressaltou que o Grêmio sabia perder, mas não aceitava abusos, reforçando o clima tenso vivido em alguns momentos da excursão.
Resultados da excursão internacional do Grêmio (1953/54)
Tour pelo México
13/12/1953 – Grêmio 4 x 0 Necaxa
16/12/1953 – Grêmio 2 x 1 CD Marte
20/12/1953 – Grêmio 3 x 3 Seleção do México
23/12/1953 – Grêmio 3 x 1 América
27/12/1953 – Grêmio 2 x 2 Toluca
30/12/1953 – Grêmio 0 x 1 Atlante
03/01/1954 – Grêmio 1 x 1 Tampico
10/01/1954 – Grêmio 0 x 0 Guadalajara
Amistosos no Equador
13/01/1954 – Grêmio 2 x 1 Emelec
17/01/1954 – Grêmio 2 x 1 Barcelona de Guayaquil
Torneio em Bogotá, Colômbia
24/01/1954 – Grêmio 1 x 5 Millonarios
27/01/1954 – Grêmio 0 x 0 Santa Fé
31/01/1954 – Grêmio 3 x 3 Rampla Juniors
Os jogadores que representaram o Grêmio na excursão
Goleiros: Sérgio Moacyr, Wilson
Zagueiros: Altino, Nílson, Pipoca, Hugo Seelig
Médios: Roberto, Noronha, Mauro, Zé Ivo, Sarará
Atacantes: Tesourinha, Delém, Victor, Mujica, Alvim, Itamar, Camacho, Júlio Torres
Um legado que atravessou décadas
A excursão de 1953/54 não foi apenas uma sequência de amistosos. Ela representou um marco simbólico da internacionalização do Grêmio, em uma época em que poucos clubes brasileiros se aventuravam fora do país por tanto tempo.
Mesmo enfrentando arbitragem hostil, gramados desconhecidos e longas viagens, o Imortal deixou sua marca na América do Norte e no norte da América do Sul, fortalecendo um DNA competitivo que, décadas mais tarde, seria reconhecido em conquistas continentais.
Foi ali, muito antes das taças, que o Grêmio começou a aprender a ser, de fato, copero.
🔵 Sobre o Acervo Grêmio Copero
Este conteúdo faz parte da restauração histórica do antigo site Grêmio Copero , preservando textos, registros e memórias do futebol tricolor que marcaram época na internet.
Hoje, o projeto segue vivo e ampliado através do Grêmio Copero Histórico , que é o sucessor oficial desta iniciativa e continua produzindo conteúdo atualizado, análises, história e cobertura completa do Grêmio.


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