Título Mundial

por Márcio Neves da Silva

As origens do mundial
Capítulo 1

Henri Delaunay

Primeiro secretário geral da UEFA e secretário do Comitê de Regras de Jogo da FIFA, o francês Henri Delaunay talvez não pudesse dimensionar, no final da década de 50, a importância e a grandiosidade que teriam suas criações. Delaunay foi o idealizador da Eurocopa e do Mundial Interclubes.

Esta última competição tinha como objetivo determinar qual era o melhor clube do mundo, pelo menos no que se refere aos continentes europeu e sul-americano, em um confronto direto entre eles. A Europa já tinha a Copa dos Campeões, mas a América ainda não possuía sua competição interclubes que nasceu em 1960, sob o comando da Confederação Sul-Americana de Futebol, antecessora da CONMEBOL. Em homenagem aos heróis da independência do continente, nasceu a Copa Libertadores da América, que acabou viabilizando a realização do Mundial.

Falecido dois anos antes, Henri Delaunay não conseguiu acompanhar a concretização do seu sonho na disputa da primeira edição do Mundial Interclubes, em 1960: Real Madrid da Espanha contra o Peñarol do Uruguai.

A partir dos anos 50 - e especialmente desde os 70 - muitos talentos do futebol sul-americano cruzaram o Atlântico para ir jogar em times europeus, mais poderosos e ricos. Talvez por isso os clubes sul-americanos passaram a dar mais importância à Copa Intercontinental do que seus adversários. Era uma oportunidade única para mostrar aos poderosos do Primeiro Mundo que os irmãos pobres da América do Sul poderiam ser superiores, pelo menos no futebol.

Os capitães de Peñarol e Real Madrid se cumprimentam antes do início da partida, em 1960

Real Madrid, da Espanha, e Peñarol, do Uruguai, disputaram a primeira final em 1960. As decisões se transformavam em verdadeiras guerras, principalmente quando a segunda partida era disputada em solo americano. As equipes européias freqüentemente sofriam com a hostilidade das torcidas e com a agressividade dos jogadores dentro de campo.

Uma final especialmente traumática ocorreu em 1969, entre Estudiantes de La Plata (Argentina) e Milan (Itália), a qual resultou em várias expulsões de jogadores argentinos. Com a desculpa de preservar a integridade dos atletas, somado à falta de incentivo financeiro, diversos campeões europeus desistiram de participar da decisão do Mundial; em todos os casos, eles acabaram substituídos pelos vice-campeões.

As edições de 1975 e 1978 não foram disputadas e a competição começou a correr o risco de ser extinta até que a empresa japonesa Toyota decidiu patrocinar o evento, levando a decisão para o Japão e passando a disputa para um jogo único. A iniciativa agradou aos clubes europeus, que nunca mais desistiram de participar.

De 1960 a 1979, a Copa Intercontinental foi jogada em ida e volta. Entre 1960 e 1968, foi decidida em pontos. Por causa deste formato, era necessário um terceiro encontro quando as equipes terminavam empatadas. De 1969 a 1979, a competição adotou o método do gol qualificado com vantagem para quem marcasse fora de casa. Começando em 1980, a final transformou-se um jogo único.

Até 2000, os jogos foram disputados no Estádio Nacional de Tóquio. A partir de 2001, mudou para o Estádio Internacional de Yokohama, palco da final da Copa do Mundo de 2002.

Libertadores: o caminho para o Japão
Capítulo 2

Em 1981, o Grêmio conquistou seu primeiro título do Campeonato Brasileiro, com um gol histórico de Baltazar contra o São Paulo, em pleno Morumbi. A vitória garantiu, também pela primeira vez, a presença do Clube na disputa pela Taça Libertadores da América, maior competição entre clubes do continente americano.

Zico segura a taça de campeão do Flamengo, depois da vitória sobre os ingleses do Liverpool

No mesmo ano, o Flamengo foi o primeiro time brasileiro a sagrar-se campeão do continente americano e ir ao Japão disputar o Mundial com o Liverpool, da Inglaterra. No dia 13 de dezembro, o time carioca venceu a disputa e levou a taça para o Rio de Janeiro.

A repercussão mundial da conquista flamenguista levou outros times brasileiros a pensarem com mais carinho em investir em bons desempenhos na Libertadores. O Grêmio, no entanto, não soube aproveitar sua primeira participação no torneio e acabou sendo eliminado ainda na primeira fase, em um grupo com Defensor Sporting (URU), Peñarol (URU) e São Paulo. Na época, apenas o primeiro do grupo seguia na competição.

Segunda chance

Nunes discute com o goleiro gremista Leão, durante a finalíssima de 1982

O Grêmio disputou o Campeonato Brasileiro de 1982 com voracidade, na esperança de conquistar o bicampeonato. No entanto, o time perdeu a finalíssima contra o Flamengo, de Nunes, e teve que se contentar com a classificação para a Copa Libertadores do ano seguinte, em sua segunda participação na competição continental.

Já com alguma experiência internacional e com o comando do caudilho Hugo de León dentro do campo, o Grêmio vislumbrou na Libertadores a possibilidade de alcançar um título inédito para o Rio Grande do Sul. A equipe treinada por Valdir Espinosa soube se adequar perfeitamente às características de garra, força e entrega que normalmente têm aqueles times latino-americanos habituados a triunfarem neste tipo de torneio.

A fórmula de disputa da Libertadores naquela época pode ser considerada muito mais difícil do que a de hoje em dia. Na primeira fase, em um grupo com quatro equipes, apenas o primeiro colocado passava para a fase semifinal. Esta fase, por sua vez, era disputada entre três equipes, com a campeã do grupo se classificando para a final. Por fim, a decisão era disputada numa melhor de três, ou seja, se cada equipe ganhasse um jogo, o campeão sairia em uma terceira partida jogada em campo neutro, normalmente em um país fronteiriço.

Com um planejamento organizado desde o final de 1982, o Grêmio montou uma equipe que mesclava juventude e experiência, técnica e garra. Sem espaço no Flamengo de Zico, o meia Tita foi contratado por empréstimo e se tornou uma das principais figuras do time de Espinosa. Na defesa, De Leon era o xerife e, no ataque, a experiência de Tarciso com a força e os dribles desconcertantes do jovem Renato. A fórmula ideal que levou o Tricolor à conquista do título.

Primeira fase

Mazarópi foi um  importante reforço para a fase semifinal

Na primeira fase, o Grêmio enfrentou Bolívar e Blooming, respectivamente campeão e vice-campeão da Bolívia, além do Flamengo, campeão brasileiro. Graças às duas vitórias em território boliviano, o Tricolor comemorou a classificação para a fase semifinal com uma rodada de antecipação.

Ainda invicto na competição, o Tricolor contou com um reforço importante para a fase semifinal: o goleiro Geraldo Pereira de Matos Filho, ou Mazarópi, foi contratado junto ao Vasco da Gama onde havia conquistado o título carioca de 1982. Sua experiência e a forma enérgica como participava das partidas serviu como uma luva na equipe gremista. Remi, titular até então,mas que havia mostrado insegurança em alguns jogos, teve que se contentar com a reserva.

Semifinal
O argentino Estudiantes de La Plata e o colombiano América de Cali foram os adversários do Grêmio na fase semifinal. Depois de vencer o Estudiantes no Olímpico por 2 a 1 na abertura da fase, o Grêmio conheceu sua primeira e única derrota na competição: 0 a 1 contra o América, em Cali.

Na partida de volta, o Grêmio deu o troco, vencendo por 2 a 1. Brilhou a estrela de Mazarópi, que defendeu uma cobrança de pênalti na segunda etapa garantindo a vitória.

O empate com os argentinos do Estudiantes entrou para a história como a Batalha de La Plata

Na última partida, a histórica “Batalha de La Plata”, Grêmio e Estudiantes ficaram no 3 a 3. O Tricolor vencia por 3 a 1 mas os donos da casa chegaram ao empate mesmo com quatro jogadores expulsos. Uma verdadeira guerra, onde jogadores, dirigentes e torcedores gremistas sofreram com a hostilidade dos agressivos argentinos presentes no acanhado estádio de La Plata.

Com este resultado, o Estudiantes enfrentou o eliminado América, em Cali, precisando de uma vitória para garantir a vaga na final. Na iminência de ficar de fora da decisão, o então presidente gremista, Fábio Koff, utilizou todo seu prestígio junto aos dirigentes do clube colombiano para garantir a mobilização necessária dos jogadores dentro de campo.

Deu certo, um empate sem gols garantiu o Grêmio na grande decisão da Libertadores contra o tradicionalíssimo Peñarol do Uruguai, que defendia o título de campeão do torneio e campeão mundial interclubes.

Final
Sempre seguro de si e defensor da teoria de que fazer o primeiro jogo em casa é melhor, a diretoria do Peñarol dispensou o sorteio que definiria o mando de campo para a final preferindo que o segundo jogo fosse realizado em Porto Alegre. O desejo dos uruguaios veio ao encontro do que queria a diretoria gremista.

No dia 22 de julho, em Montevidéu, as duas equipes entraram no gramado de um místico Estádio Centenário lotado para dar início à decisão da 24º edição da Libertadores. O Peñarol, querendo fazer escore, e o Grêmio tentando segurar o ímpeto charrua.

Tita escora escanteio de Tarciso e faz o primeiro gol do Grêmio

Logo no início, o meia Tita abriu o marcador para o Tricolor depois de escanteio cobrado por Tarciso da esquerda. Grêmio 1 a 0. Na base da raça, o Peñarol chegou ao empate ainda na primeira etapa com Fernando Morena.

A pressão dos uruguaios em busca da vitória durou até o final mas o Grêmio foi guerreiro e conseguiu assegurar um empate maiúsculo em território inimigo, bastante comemorado por todos os gremistas. Bastava agora uma vitória simples no Olímpico para que o título não saísse de Porto Alegre. O sonho de Tóquio estava cada vez mais próximo.

Porto Alegre parou no dia 28 de julho de 1983 e voltou as atenções para o Estádio Olímpico onde, à noite, Grêmio e Peñarol faziam o segundo jogo da final da Copa Libertadores. Quem vencesse garantiria o título. Um novo empate levaria a decisão para um terceiro jogo em campo neutro na cidade de Buenos Aires.

Desde o início, o Tricolor transformou o gigantesco apoio de sua torcida em superioridade dentro de campo. O primeiro gol não demorou a sair: Osvaldo entrou pela esquerda e chutou cruzado. A bola passaria na frente do gol mas Caio apareceu e empurrou para as redes.

Atrás no marcador, os uruguaios não mediram esforços para chegar ao empate e, apesar de grande atuação do setor defensivo gremista, marcaram no início da etapa final. Fernando Morena, de cabeça depois de cobrança de falta da direita, fez 1 a 1.

Também de cabeça, o atacante César sela o resultado: Grêmio campeão da América
 

O gol abalou a equipe gremista que demorou um pouco até colocar a cabeça no lugar e voltar a fazer prevalecer sua superioridade. Aos 32 minutos, Renato recebeu ao lado da área, pela direita, e cruzou. O atacante César, que havia entrado no lugar de Caio, mergulhou de cabeça e marcou o gol da vitória gremista. Loucura no Estádio Olímpico!

O único vermelho de destaque em Porto Alegre, nos dias seguintes, era o sol nascente representado na bandeira do Japão. O Grêmio estava garantido em Tóquio para enfrentar o Hamburgo na decisão do Mundial Interclubes de 1983.

Como o Hamburgo chegou a Tóquio
Capítulo 3

Felix Magath, autor do gol da vitória, levanta a taça de campeão da Europa

Com uma grande torcida, mas com pouca tradição no futebol, o Hamburg Sport-Verein, da cidade de Hamburgo, ainda podia ser considerado um clube emergente dentro da Europa. Fundado em 1887 (o clube mais antigo da Alemanha), na segunda maior cidade do país, possuía apenas seis títulos nacionais no currículo, o último deles exatamente em 1982, quando garantiu vaga na Copa dos Campeões do ano seguinte.

Neste ano, foi vice-campeão da Copa da Uefa, perdendo para o Gotemborg, da Suécia. Em 1968 perdeu para o Milan a Recopa européia, chegando ao título em 1977, ao bater o Anderlecht belga.

Ao contrário do que todos esperavam, o time alemão foi a grande zebra da mais importante competição européia da temporada 82/83, deixando pelo caminho adversários sem muita tradição. Talvez por isso tenham triunfado. Naquela época, a fórmula de disputa era diferente da atual, com confrontos eliminatórios de ida e volta que lembram a nossa Copa do Brasil.

Na grande decisão, realizada no dia 25 de maio de 1983, no Estádio Olímpico de Atenas, na Grécia, o Hamburgo bateu por 1 a 0 a poderosa Juventus da Itália, de Michel Platini e base da seleção italiana campeã mundial no ano anterior. O gol foi marcado aos 9 minutos por Felix Magath (na foto levantando a taça do título), a principal estrela da equipe.

O Hamburgo, treinado pelo austríaco Ernst Happel, jogou com Stein; Kaltz, Jakobs, Hieronymus e Wehmeyer; Groh, Rolff, Bastrup (Heesen) e Magath; Milewski e Hrubesch. A Juventus, do técnico Giovanni Trapattoni, atuou com Zoff; Gentile, Brio, Scirea e Cabrini; Bonini, Platini, Tardelli e Boniek; Bettega e Paolo Rossi (Marocchino).

Confira abaixo como foi a campanha do Hamburgo na Copa dos Campeões, que garantiu a presença do clube em Tóquio para enfrentar o Grêmio:

Data

Local

Partida

Primeira fase

15/09/82

Berlim/ALE

Dynamo 1 x 1 Hamburgo

29/09/82

Hamburgo 

Hamburgo 2 x 0 Dynamo

Oitavas-de-final

20/10/82

Hamburgo

Hamburgo 1 x 0 Olympiakos

03/11/82

Pireus/GRE

Olympiakos 0 x 4 Hamburgo

Quartas-de-final

02/03/83

Tbilisi/GEO*

Dinamo Kiev 0 x 3 Hamburgo

16/03/83

Hamburgo

Hamburgo 1 x 2 Dinamo Kiev

Semi-final

06/04/83

San Sebastian/ESP

Real Sociedad 1 x 1 Hamburgo

20/04/83

Hamburgo

Hamburgo 2 x 1 Real Sociedad

Final

25/05/83

Atenas/GRE

Hamburgo 1 x 0 Juventus

*Mesmo sendo de Kiev, o Dinamo mandou seu jogo em Tbilisi, atual Georgia
 

Operação Tóquio: 136 dias de preparação
Capítulo 4

Desde a conquista da Libertadores, no dia 28 de julho, até a final do Mundial, no dia 11 de dezembro, o Grêmio teria exatos 136 dias para se preparar. Foi uma verdadeira maratona, com 40 jogos neste período, mesclando a equipe titular e a reserva.

Equipe titular que havia sofrido uma baixa importante. Nem mesmo a vaga assegurada na grande decisão de Tóquio foi suficiente para que o meia Tita desistisse da idéia de retornar ao Flamengo após a conquista da Libertadores. Eterno reserva de Zico no time da Gávea antes de ser emprestado ao Grêmio, Milton Queirós da Paixão, o “Tita”, viu na venda do Galinho de Quintino para a Udinese da Itália a grande chance de assumir a camisa 10 do rubro-negro carioca, um antigo sonho. A vontade do jogador aliada à pressão do Flamengo por seu retorno tornou impossível manter o atleta no Olímpico.

Mário Sérgio e Paulo César Caju, as novas armas do Grêmio para a decisão em Tóquio

Com a iminente perda de um dos seus principais jogadores na campanha da Libertadores, o Grêmio tratou de buscar um substituto a altura. Acabou trazendo não apenas um, mas dois substitutos: os experientes Mário Sérgio e Paulo César Caju. Este último já havia atuado pelo Tricolor em 1979, vencendo o Estadual.

Mário Sérgio atuava pela Ponte Preta, e Paulo César foi trazido do Aix em Provence, equipe do futebol francês. Estavam aí os dois reforços visando a final de Tóquio que fizeram a torcida esquecer Tita.

Toquiomania
Após a conquista da Libertadores, a palavra “Tóquio” passou a fazer parte do cotidiano dos gremistas, e a conquista do Mundial, no final do ano, virou uma verdadeira obsessão. Não só para os dirigentes e jogadores do Tricolor mas, principalmente, para a torcida.

Torcedores começaram a se mobilizar para fazerem parte deste momento inesquecível em solo japonês. Muitos trataram de vender bens pessoais para juntar os quase 3 milhões de cruzeiros (3 mil dólares) em um pacote de sete dias e vôo charter oferecido por diversas empresas de turismo da capital gaúcha.

Quem não tinha condições, tratava de se associar ao clube na esperança de ser sorteado com uma das 80 passagens oferecidas em uma promoção de marketing organizada pelo Grêmio com o objetivo de chegar aos 80 mil sócios no ano em que completava 80 anos.

O Sol nascente da enorme bandeira japonesa começou a chamar atenção entre o azul da Super Raça Gremista

Nos jogos disputados após a conquista da América, uma gigantesca bandeira do Japão destoava das demais no meio da torcida organizada Super Raça Gremista.

As coisas do Japão passaram a significar símbolo de status entre a coletividade gremista. O consulado japonês em Porto Alegre, normalmente absorto em sua tranqüilidade habitual, passou a receber diariamente a visita de dezenas de torcedores em busca de informações sobre o país do sol nascente. Sair de lá com um simples panfleto já era suficiente. Até mesmo o restaurante Sakae´s, na época o único de culinária nipônica do estado, dobrou o número de clientes.

Tudo graças à “Toquiomania” que tomou conta dos gremistas. Um envolvimento emocional impressionante visando a decisão do Mundial. Algo jamais visto na história do Clube. Estava criado um quadro de otimismo e motivação que, somado à indiferença dos alemães do Hamburgo, trazia a certeza da vitória.

Operação Tóquio
Em meio à disputa do Campeonato Estadual, a direção gremista resolveu instalar a “Operação Tóquio”, dando completa atenção à partida com o Hamburgo. Inevitavelmente, a competição estadual passou a ter um grau de importância bem menor do que o habitual e o clube optou por utilizar uma equipe reserva na fase decisiva da competição. A decisão acabou alijando com as possibilidades do Tricolor de retomar a hegemonia estadual e o clube ficou na terceira colocação, atrás de Inter e Brasil de Pelotas.

Para fugir do clima de euforia da capital, o Grêmio se refugiou na cidade de Gramado, na Serra gaúcha

Entre as ações da direção gremista, houve um esquema de acompanhamento a fundo da equipe alemã, com o apoio da imprensa gaúcha e de gremistas radicados na Alemanha e uma excursão pela América Central. Com a proximidade da viagem para Tóquio, a diretoria gremista decidiu afastar o grupo da euforia que tomava conta dos torcedores gremistas em Porto Alegre e concentrou a delegação na cidade de Gramado, na Serra Gaúcha. Longe da agitação, o grupo trabalhou forte sob o comando do preparador físico Ithon Fritzen.
 

Osvaldo, lesionado, era uma das dúvidas para Tóquio

Em um dos trabalhos, Mário Sérgio sofreu uma lesão na região glútea após uma queda e passou a ser dúvida. Além da lesão, o jogador acabou atingido por uma séria infecção intestinal responsável por uma debilitação física. Outro problema era Osvaldo, sentindo dores na coxa.

Após o período em Gramado, o Grêmio desceu a serra para um último compromisso antes do início da viagem marcada para a tarde de segunda-feira. No sábado, a equipe reserva havia sido derrotada pelo Brasil de Pelotas, no Bento Freitas, dando adeus ao campeonato gaúcho, e no domingo, no Olímpico, em um amistoso de despedida, o time principal acabou derrotado pelo Novo Hamburgo pelo placar de 1 a 0.

O resultado não abalou a confiança da torcida gremista que prometeu lotar o aeroporto Salgado Filho antes do embarque.

O papel da imprensa na decisão
Capítulo 5

Com a grande mobilização no Estado e o interesse da torcida gremista em conhecer um pouco mais sobre o Japão e o inimigo do dia 11 de dezembro, a imprensa gaúcha teve papel importante no sentido de traze para o torcedor dados minuciosos sobre o País do Sol Nascente e sobre a equipe alemã.

Rádio Gaúcha e Rádio Guaíba, as duas principais emissoras do Estado na época, destinaram correspondentes para acompanhar de perto o dia-a-dia do Hamburgo às vésperas de decisão. No dia 07 de dezembro, as duas emissoras transmitiram ao vivo a derrota do Hamburgo, em casa, por 2 a 0, contra o Stuttgart pelo campeonato alemão. Foi o último jogo antes do embarque da delegação rumo à Tóquio.

Como não poderia deixar de ser, a repercussão foi muito grande entre a coletividade gremista que acompanhou atentamente o relato de como jogava o inimigo do Grêmio. Por estes e outros acontecimentos, a imprensa esportiva do Rio Grande do Sul é a melhor do país e uma das melhores do mundo.

Belmonte, repórter em Tóquio
Capítulo 6

A Caldas Júnior, empresa responsável pela rádio e TV Guaíba e pelo jornal Correio do Povo, decidiu se antecipar aos fatos e enviou um repórter ao Japão 4 meses antes da grande final. Em agosto, o jornalista João Carlos Belmonte, atualmente na Bandeirantes de Porto Alegre, desembarcava em Tóquio com a missão de levar aos gaúchos um pouco da cultura japonesa e da expectativa do povo local pela partida.

Belmonte conversou com Grêmio.Net e contou como foi esta verdadeira aventura.

Belmonte: Realmente foi uma aventura, chegar em um país desconhecido. Não tínhamos a mínima idéia do que iríamos encontrar, era uma novidade para todo mundo, tanto para nós quando para o torcedor do Grêmio que queria saber de tudo.

Passei quase um mês como correspondente da Caldas Júnior com a missão de enviar ao Brasil reportagens diárias, que eram publicadas no Correio do Povo. Além disso, fizemos um acordo com uma TV japonesa e colhemos mais de 3 horas de imagens que posteriormente viraram um programa de uma hora e meia, apresentado na TV Guaíba, falando sobre a cidade, os costumes, o Estádio Nacional, o hotel do Grêmio, etc. O sucesso foi tão grande que a Guaíba teve que reapresentar a pedido dos torcedores gremistas.

Grêmio.Net: E como foi este intercâmbio com os japoneses?

Belmonte: Os japoneses também tinham muita curiosidade sobre nós. Quem eram aqueles habitantes do Cone Sul que viriam jogar em Tóquio? Levei vários presentes pra eles, como camisa do Grêmio, bandeiras, discos... Os japoneses adoram presentes.

Entramos em um acordo para que eles nos ajudassem com a gravação de matérias sobre Tóquio e, em troca, eles viriam a Porto Alegre e nós ajudaríamos com matérias sobre nossa cidade.

Fiz uma recepção em minha casa, com um churrasco assado pelo Érico Sauer. Eram jornalistas de uma TV contratados pela Toyota, patrocinadora do jogo. Ficaram espantados com o tamanho do meu pátio e com a quantidade de carne que comemos (risos). A Caldas Júnior conseguiu hospedagem de graça no Hotel Everest. Lá em Tóquio, em troca, ficamos de graça no mesmo hotel da delegação gremista.

Grêmio.Net: Como foi a preparação da emissora para a transmissão do jogo?

Belmonte: Cheguei uma semana antes para preparar os detalhes da transmissão. Alugamos, em segredo, um satélite 24 horas para a transmissão da partida pela Rádio Gaúcha. Em troca da assistência técnica, liberamos o nosso áudio, com a narração do Armindo Ranzolin, para que fosse reproduzido pela TV japonesa.

Grêmio.Net: Então o Japão acompanhou o jogo com a narração em português?

Belmonte: Exatamente. Provavelmente algum japonês deveria falar alguma coisa em cima da voz do Ranzolin, mas a transmissão foi em português. Curioso é que a TV japonesa não estava acostumada a transmitir futebol e colocou no ar só os 90 minutos. Deixaram a prorrogação de lado. Isso sem falar que colocavam propagandas no meio do jogo (risos). Tenho um conhecido que, lá no Japão, comprou um DVD deste jogo com a narração da Guaíba.

Grêmio.Net: Qual a importância de uma experiência como esta para um jornalista?

Belmonte: É uma experiência fantástica. Entra para o currículo. Tanto é que sempre que apresento meu currículo, além de destacar as sete copas do mundo de que participei, destaco também essa conquista do Grêmio. Foi uma coisa inesquecível.

Banha, massagista do Mundial
Capítulo 7

Alvaci Silva de Almeida, conhecido no meio futebolístico como “Banha”, é presença constante nos pôsteres das principais conquistas da história do Grêmio. No Clube desde 1964, quando tinha 21 anos, Banha era o responsável pelo relaxamento muscular dos atletas. Por motivos de saúde abandonou a função no final da década de 90.

Conversando com os amigos nas dependências do Olímpico, Banha atendeu o Grêmio.Net para falar um pouco sobre a histórica conquista de 1983.

Grêmio.Net: Qual o momento mais marcante daquele conquista no Japão?

Banha: Foi quando o juiz apitou o final de jogo e a festa começou no estádio. Depois continuou no ônibus, no hotel. Tudo com muito champanhe.

Grêmio.Net: Você conheceu quase o mundo todo com o Grêmio mas uma viagem tão longa e cansativa como esta foi a primeira vez. Como foi o vôo até Tóquio?

Banha: Foi tranqüilo. Conversamos bastante, jogamos carta, tomamos chimarrão. Na época eu pesava 143 Kg e o pessoal caiu na minha cabeça porque eu não conseguia fechar o cinto de segurança. A aeromoça teve que trazer outro pedaço de cinto para poder fechar. Era complicado ir ao banheiro também. Muito apertado (risos).

Grêmio.Net: Você já foi quatro vezes com o Grêmio ao Japão mas em 1983 era a primeira vez. Como foi esse primeiro contato com tão diferente cultura?

Banha: Parecia que eu estava em outro mundo. Era completamente diferente do que eu estava acostumado. Uma tecnologia muito desenvolvida. Para atravessar a rua, havia um aparelho sonoro para ajudar os cegos a atravessarem. Impressionante.

Grêmio.Net: Houve alguma dificuldade de comunicação no dia-a-dia com os japoneses?

Banha: Não. Nenhum. O Grêmio pensou em tudo e, no hotel, haviam quatro ou cinco intérpretes à disposição da delegação. Se a gente queria sair pra fazer compras, sempre éramos acompanhados por um deles. Fiquei responsável por fazer feijão para os jogadores e até mesmo na cozinha havia um intérprete pra me ajudar.

Grêmio.Net: Como foi a expectativa antes da partida?

Banha: Uma ansiedade muito grande. Trabalhei direto com o Osvaldo. Ele viajou sentindo dores e fizemos um tratamento intensivo. De manhã, de tarde e de noite. Só na véspera da partida que ele acordou sem dor e acabou sendo uma das grandes figuras da conquista.

Grêmio.Net: No momento em que o Hamburgo empatou o jogo, você estava atendendo o Renato, com câimbras, na beira do gramado. Como foi aquele momento?

Banha: Quando o Hamburgo fez o gol, nós gelamos. O Renato se levantou rapidamente e voltou para o campo dizendo “vamos ganhar, vamos ganhar”. Graças a Deus ele conseguiu fazer o segundo gol na prorrogação. A equipe já estava cansada física e mentalmente e o gol veio na hora certa.

Grêmio.Net: Você ainda mantém contato com o pessoal daquela época?

Banha: Claro. Tenho contato com o Hélio (roupeiro), meu companheiro de Grêmio por 40 anos. O Tarciso, o Paulo Roberto. Até mesmo com o De Leon, na época em que ele estava treinando o Clube. Todos que andam pela área a gente encontra e pára para bater um papo.

Valdir Espinosa, aposta vitoriosa
Capítulo 8

Valdir Ataualpa Ramirez Espinosa. Hoje em dia, o nome de um técnico consagrado dentro do futebol brasileiro. Em 1983, com apenas 36 anos de idade, um profissional em início de carreira em busca de oportunidade para mostrar sua competência.

A oportunidade foi dada pelo Grêmio de Fábio Koff que, com sua visão futurista, acreditou nas potencialidades daquele jovem treinador que, anos antes, havia defendido o Grêmio como jogador. Com aval da direção, Espinosa assumiu no início do ano, durante a pré-temporada em Gramado. Começava ali um dos trabalhos de maior sucesso de um treinador no comando do Clube.

Por telefone, direto de Fortaleza, Espinosa atendeu a reportagem de Grêmio.Net e falou sobre aquele inesquecível momento em Tóquio.

Grêmio.Net: Quando você assumiu o Grêmio, tinha alguma idéia de que poderia chegar até onde chegou conquistando o Mundial Interclubes?

Espinosa: Eu tenho muito medo de avião e lembro que no dia da minha apresentação, em Gramado, falei para os jogadores no vestiário: “Façam uma sacanagem comigo. Me levem a Tóquio no fim do ano”. Não sei se eles tinham essa real idéia mas a verdade é que chegamos lá.

Grêmio.Net: Mas quando você foi contratado, a direção gremista já tinha esse objetivo de chegar ao Japão no final do ano?

Espinosa: Sim. Quando fui contratado, junto com outros companheiros, o Fábio Koff foi bem claro e disse: “Estes são os contratados e nós temos um título mundial para disputar no final do ano”.

Grêmio.Net: Qual a importância desta conquista para sua carreira que estava começando?

Espinosa: Se até hoje são poucos os clubes que chegaram a esta conquista no Brasil, também são poucos os treinadores. Valoriza muito o currículo de qualquer profissional. Ele fica muito mais forte. E a importância aumenta quando você conquista um título desta grandeza defendendo o time que você torce.

Grêmio.Net: Como foi a preparação com relação ao Hamburgo? Como foi feito para tomar informações sobre o adversário?

Espinosa: Naquela época não tínhamos a facilidade que temos hoje em dia. Conseguimos apenas uma fita com a gravação de um jogo do Hamburgo trazida da Alemanha por um comandante da Varig que era gremista. Eu e o Ithon Fritzen fomos para Hamburgo ver uma partida contra o Werder Bremen. O acompanhamento da imprensa gaúcha também foi importante. Houve uma cumplicidade muito grande por parte de todo mundo. Não era só o Grêmio que estava em jogo, era o futebol brasileiro.

Grêmio.Net: Qual a principal lembrança que você tem daquela conquista?

Espinosa: São duas lembranças: antes do início da prorrogação, o De Leon, que era o capitão, chegou pra mim e disse: “Fica tranqüilo. Lá na área ninguém mais vai cabecear”.Ouvindo isso, o Renato chegou pra mim e falou: “Se lá atrás a defesa garante, pode deixar que lá na frente eu vou arrebentar”.

Grêmio.Net: Qual foi o momento mais difícil?

Espinosa: O gol do Hamburgo. O jogo já estava no final e isso levaria a decisão para uma prorrogação. Mas depois do que escutei do De Leon e do Renato não perdi a confiança.

Grêmio.Net: Quando você teve a certeza de que o título seria nosso?

Espinosa: A gente sempre acreditou. O grupo era extraordinário. Com uma grande qualidade técnica, força e determinação. Talvez uma das maiores equipes que o Grêmio já teve em sua história. Nós não fomos para Tóquio para apenas disputar um jogo, fomos para buscar o título.

Grêmio.Net: Como era sua relação com os atletas?

Espinosa: Havia uma amizade muito grande e muito respeito. Evidente que a experiência não é a mesma que tenho hoje mas sempre houve muito respeito. Tanto por parte dos jogadores quanto por parte do Koff, dos médicos, do Verardi. Havia uma cumplicidade muito grande e uma entrega por parte de todos.

Grêmio.Net: Você tem alguma história curiosa vivida neste período no Japão que possa ser relembrada?

Espinosa: Logo após o final do jogo, eu, o De Leon e o Renato, que havia sido eleito o melhor em campo, permanecemos no estádio para a entrevista coletiva enquanto o resto do grupo ia para o hotel. Quando chegamos de volta ao hotel, chamei todos os jogadores para o meu quarto e pedi três champanhas para comemorar. Quando o japonês trouxe a conta eu me apavorei. Não tinha como pagar. Chamei o Koff e disse: “Presidente, assina essa conta aqui pra mim”. Ele disse: “Tá bom. Deixa comigo”. (Risos) Isso que foram só três champanhas. Imagina se tivesse pedido mais?

Renato, o nome da decisão
Capítulo 9

Jovem. Impetuoso. Ousado. Vencedor. Os adjetivos caracterizam Renato Portaluppi, a principal figura do Grêmio na conquista do Mundial Interclubes de 1983. Com sua técnica, força e habilidade, deixou de queixo caído alemães e japoneses que ainda não conheciam suas arrancadas e seus dribles desconcertantes pela ponta direita.

Se aproveitando deste fator surpresa, Renato deitou e rolou em cima dos truculentos zagueiros do Hamburgo e marcou os dois gols da vitória gremista. O menino que trabalhava como padeiro deixou a pequena cidade de Bento Gonçalves, na serra gaúcha, para se perpetuar na história como o jogador mais importante que já vestiu o manto tricolor.

Por telefone, Grêmio.Net conversou com Renato e relembrou os principais momentos daquela conquista inesquecível.

Grêmio.Net: Qual a principal lembrança que você tem daquela conquista no Japão?

Renato: Sem dúvida foram os dois gols que eu fiz. Foi uma emoção muito grande ver a alegria de todo mundo. É até difícil descrever e destacar um momento em especial.

Grêmio.Net: Em qual momento do jogo que você sentiu que o Grêmio ganharia o título?

Renato: Foi no fim dos 90 minutos. Eu estava com câimbras, o China estava com o tornozelo inchado, tinha mais alguém que estava sentindo também. Mesmo assim, a galera tava afim de voltar para o jogo e voltar com tudo. Ali senti que levaríamos o título.

Grêmio.Net: Quando o Hamburgo chegou ao empate, no final de jogo, você estava com câimbras fora de campo. O que você sentiu naquele momento? Chegou a temer que a vitória poderia escapar até porque o grupo estava sentindo bastante no aspecto físico?

Renato: Foi um momento complicado. Cheguei a temer se eu não voltasse para o gramado. Felizmente o Banha (massagista) fez uma massagem esperta e me deixou na boa.

Grêmio.Net: Você foi escolhido o melhor em campo e recebeu um carro da Toyota. O que foi feito com o carro?

Renato: Havíamos combinado que se alguém ganhasse o carro, pegaria o valor em dinheiro e dividiria com o resto do grupo ou ficaria com o carro tirando o dinheiro do bolso para dividir com o pessoal. Eu optei pela primeira: peguei o dinheiro e dividi com o grupo.

Grêmio.Net: Você tem alguma história particular vivenciada durante esta estada no Japão que possa dividir com o pessoal do site?

Renato: Foi um período muito legal. Os japoneses são gente finíssima e nós sacaneávamos eles direto. Mas me lembro de uma história em particular: na manhã de domingo, dia do jogo, antes da saída para o estádio, um dos intérpretes fornecidos pela Toyota tentou reunir o Espinosa e o treinador do Hamburgo (Ernst Happel) para uma foto no saguão do hotel. O técnico deles recusou o convite dizendo que não conhecia ninguém do Grêmio e que estava com pressa de sair para o estádio para ganhar o título e ir embora pra casa. Isso me irritou demais. Depois que eu fiz o segundo gol, corri para frente dele e gritei: “agora você conhece o Grêmio”. O interprete estava ao lado e traduziu na hora.

Fábio Koff, o presidente do Mundial
Capítulo 10

Neste trabalho de pesquisa, com relatos emocionantes e exclusivos de quem vivenciou aquela decisão de Tóquio, não poderia faltar a participação de uma das pessoas mais importantes e decisivas. Fábio André Koff iniciou 1983 projetando o final do ano com a conquista do Mundial. Pouca gente acreditava, mas Koff fez prevalecer suas convicções e concretizou seu sonho maior de voltar ao Brasil carregando a taça de campeão mundial.

Pelo telefone, Koff atendeu a reportagem de Grêmio.Net para compartilhar com todos os gremistas um pouco desta experiência inesquecível.

Grêmio.Net: Quando o senhor acreditou que o Grêmio seria campeão do mundo?

Koff: No primeiro ano como presidente, em 1982, o Grêmio vinha de um vice-campeonato brasileiro e de uma Libertadores com resultados ruins. No fim do ano aceitei a reeleição porque eu tinha uma premonição, ou um palpite, de que seríamos campeões do mundo. E não disse isso brincando. Eu estava apostando tudo nisso. (pausa) Também não é difícil ter premonição desse tipo com um jogador como o Renato no time (risos). Aceitei a reeleição e tivemos tempo e tranqüilidade para montarmos uma equipe com características de um time valente para a disputa de uma Libertadores e de um Mundial. Tudo com critério e convicção.

Grêmio.Net: A contratação do Espinosa no início de 1983 também fez parte desta convicção?

Koff: Fez. No final de 1982 o Ênio Andrade decidiu por sair do Grêmio dizendo que seu ciclo já havia terminado. Foi então que, juntamente com o Alberto Galia, decidimos apostar no Espinosa para comandar um projeto que terminaria, dentro da nossa expectativa, em dezembro, em Tóquio. Jamais deixamos de acreditar nisso.

O curioso é que, dez anos depois, assumi o Grêmio outra vez com essa mesma convicção, esse mesmo palpite, e acabamos voltando a Tóquio em 1995.

Grêmio.Net: Como foi a preparação do grupo para aquele jogo de Tóquio?

Koff: Depois da conquista da Libertadores, ficamos focados apenas nesse jogo. Mandei o Espinosa e o Ithon para a Alemanha onde eles acompanharam jogos do Hamburgo. Na época, tínhamos muito pouco material então achamos importante acompanhar de perto. O Espinosa é muito inteligente e pensou muito bem o jogo.

Grêmio.Net: O que vocês conheciam do Hamburgo?

Koff: Tudo que eu conhecia era pela literatura e algumas informações que conseguíamos através de amigos. Depois o Espinosa foi lá ver. Ele sempre esteve bem informado além de ser um estudioso.

Koff exibe a taça do Mundial ao chegar no aeroporto, em Porto Alegre

Grêmio.Net: Qual foi o momento daquele jogo em que o senhor teve a certeza do título?

Koff: Só fui ter certeza depois do segundo gol do Renato. Aí pensei: “agora nunca mais”.

É bom registrar para que todo mundo saiba que agora a Fifa reconheceu o Grêmio como campeão do mundo. Estamos lá na galeria dos melhores do mundo. Muita gente dizia que havíamos ganhado uma competição não oficializada.

Grêmio.Net: O senhor tem alguma história curiosa, peculiar, desta viagem ao Japão que possa ser relembrada?

Koff: O Alberto Galia sempre foi muito religioso, crente. Um dia fomos visitar o templo de Buda, em Tóquio. No altar havia uma fumaça que ficava ali permanente. O Galia começou a agarrar aquela fumaça com as mãos e a passar por todas as partes do corpo. Todas mesmo. Meio que constrangido ele olhou pra mim e disse que era para dar sorte. Mesmo com aquele jeito de brincalhão, a gente sabia que no fundo o desejo era esse. E deu certo.

Grêmio.Net: Será que tem como descrever a sensação de ser um presidente campeão do mundo e a emoção de chegar em Porto Alegre carregando a taça?

Koff: Não. Isso é indescritível. Quando a gente está no estádio, em um país distante, com tudo muito diferente, a gente fica com a euforia um pouco contida, sem poder extravasar. Só lamentávamos em não estar em Porto Alegre naquela hora. Mas esse sentimento foi compensado quando chegamos no aeroporto. Ver aquelas pessoas na rua, a cidade parada, o desfile da delegação, a recepção no Palácio Piratini... Um momento indescritível. Fico feliz por ter contribuído com isto e ter vivido este momento.

Viagem até o outro lado do Mundo
Capítulo 11

Dia 05 de dezembro de 1983, segunda-feira, 17h30, um vôo da Varig levando 170 passageiros, entre eles os atletas gremistas, decolava do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, tendo como destino final o aeroporto de Narita, no Japão. Com eles, embarcava a esperança de milhares de torcedores ansiosos com a decisão do Mundial Interclubes.

A despedida emocionada de centenas de gremistas no aeroporto da capital gaúcha fez com que o início de viagem fosse marcado por um clima de alegria e confiança. Ninguém demonstrava preocupação com o desgastante vôo.

Porto Alegre - Rio de Janeiro - Lima

A primeira parada foi no Rio de Janeiro, onde a delegação trocou para um avião maior. No mesmo vôo, embarcaram os jogadores do time Estrelas da América, uma equipe com atletas e ex-atletas da América do Sul que faria jogos amistosos nos Estados Unidos.

As presenças de Rodolfo Rodriguez, Romerito, Rodrigues Neto, Carlos Alberto Torres e Figueroa, entre outros, causou rebuliço no avião. O zagueiro chileno, ex-Internacional, foi alvo das brincadeiras de gremistas e acabou tendo que vestir uma camisa do Grêmio, para alegria dos fotógrafos.

O carteado foi o passatempo predileto dos gremistas e passageiros em geral

O carteado foi a principal distração encontrada pelos passageiros para ocupar o longo tempo ocioso dentro da aeronave. Jogos animados entre atletas, torcedores e diretoria ocupavam as atenções dos demais. Poucos permaneciam em seus lugares, e a caminhada pelos corredores foi a alternativa para a bem-vinda esticada de perna. Depois da janta e com a chegada da madrugada, as luzes foram apagadas e a maioria, derrotada pelo cansaço, caiu no sono.

A chegada em Lima ocorreu por volta das 3h30 de terça-feira, com escala de uma hora para reabastecimento. Alguns passageiros se aventuraram a descer do avião para fazer compras no aeroporto, mas prontamente retornaram de mãos vazias reclamando dos altos preços cobrados pelos comerciantes locais.

Lima - Los Angeles - Narita

Por volta das 10h de terça-feira, dia 6, já com o sol brilhando do lado de fora da janela, foi servido o café da manhã. Muitos já estavam de volta ao carteado, acompanhado do chimarrão. O avião se aproximava de Los Angeles, nos Estados Unidos, local da última escala antes do trecho mais longo da viagem.

Com o aeroporto de Los Angeles em reforma, os passageiros tiveram que aguardar em um local improvisado, dentro de um galpão inflável, até o anúncio da saída da nova aeronave. Dali para o Japão seriam mais 11 horas de vôo.

A constante mudança no fuso horário acabou confundindo todo mundo. A discussão a respeito do horário durou um bom tempo. Uns tinham mudado o relógio para o horário do Peru, outros para os Estados Unidos, mas a maioria optou por não mexer. Na verdade, a discussão foi só mais um pretexto para passar o tempo.

O técnico Valdir Espinosa, sabidamente temeroso quando entra num avião, já deixara de ser o alvo das brincadeiras. Acostumado com os barulhos das turbinas e com as turbulências, passou algumas horas na cabine de comando, onde recebeu uma aula de pilotagem.

De León, Mazarópi, Caio, Tonho e o próprio Espinosa, contavam com a presença de suas esposas no vôo. Uma concessão da diretoria gremista após apelo de Margarita, esposa do capitão uruguaio.

Enfim, depois de intermináveis 36 horas de viagem, o avião levando a delegação gremista (foto) aterrissou no aeroporto de Narita, no Japão. Eram 2h da manhã de quarta-feira no Brasil, 14h no Japão.

Treinamentos em Tóquio

Feito todo o trâmite de entrada no país, a delegação gremista sofreu o primeiro choque cultural tendo em vista o avanço tecnológico e as modernidades japonesas. Isso sem falar no idioma. Nenhum letreiro que não tivesse a tradução para o inglês poderia ser identificado.

Sensível a estes problemas, a Toyota, patrocinadora do Mundial, colocou cinco tradutores à disposição da delegação 24 horas por dia. Com a ajuda deles, todos os problemas de alfândega foram solucionados até a delegação embarcar em um ônibus especial com destino ao local da concentração, no centro de Tóquio.

Um grande contingente de brasileiros aguardava no saguão do Hotel Prince pela chegada da delegação gremista. O trajeto de Narita até o hotel durou aproximadamente duas horas, um sacrifício pequeno para quem já havia passado 36 horas em deslocamento. A recepção foi carinhosa, ao estilo japonês, e animada, ao estilo brasileiro.

A grande maioria dos gremistas preferiu subir para os quartos para tomar banho e descansar em uma cama de verdade. O delicioso jantar foi servido às 20h15, horário local. Uma hora depois, a programação distribuída pelo clube anunciava que os atletas deveriam se recolher aos aposentos. O principal objetivo agora era adaptar o organismo dos jogadores ao fuso horário local.

Depois de aproximadamente 11 horas de descanso, a delegação gremista despertou às 9h da manhã de quinta-feira para o desjejum no restaurante do hotel. Uma alimentação leve, para não interferir no treinamento marcado para o meio-dia em um centro de treinamento próximo ao hotel.

O horário foi decidido pela comissão técnica por coincidir com o horário da partida de domingo. O estádio Nacional, local do jogo, só seria disponibilizado no sábado para um rápido reconhecimento do gramado.

Valdir Espinosa e Ithon Fritzen comandaram um trabalho leve tanto na parte técnica quanto física. Alguns jogadores demonstraram bastante desgaste depois da viagem de 36 horas. A baixa temperatura, em torno de 6°C, também não ajudava. O treinador gremista afirmou que manteria os trabalhos leves em todos os treinos até a partida pois o trabalho mais forte já havia sido realizado em Gramado.

Tarciso sentiu dores musculares durante o vôo e foi observado pelo Departamento Médico. China ainda se recuperava de uma entorse no tornozelo e Mário Sérgio apresentava um quadro gripal. Porém, nenhum chegou a ser dúvida para o jogo. O ponto positivo do dia foi que ninguém mostrou problema de adaptação ao fuso horário.

O Estádio Nacional

Inaugurado em 1958 para a disputa dos jogos asiáticos, o Estádio Nacional de Tóquio, até a Copa do Mundo de 2002, era o maior orgulho do país em matéria de futebol. Em 1964, foi palco dos Jogos Olímpicos e, três anos depois, sede da Universíade. Atualmente, recebe partidas do FC Tokyo e do Verdy Tokyo.

Com capacidade oficial para 60.067 espectadores, o Estádio Nacional é um ponto de referência para os esportistas japoneses por sua localização central e privilegiada. Seu complexo esportivo, que conta com dois campos de baseball, fica ao lado do prédio do Arquivo Nacional, dentro do Meiji Jingu Gaien Park, uma área verde freqüentada por jovens em busca de lazer e exercícios físicos.

Sábado, meio-dia, faltando 24 horas para o início da decisão, a delegação gremista desembarcou no local da partida para o reconhecimento do gramado. O mesmo seria feito pela equipe do Hamburgo horas depois.

O gramado queimado pela neve do rigoroso inverno japonês deixou uma má impressão, mas que foi prontamente desfeita quando os atletas começaram a fazer a bola rolar. Apesar de duro, amarelado e desgastado pelo frio, o piso mantinha a qualidade para a prática de um bom futebol. Os jogadores acabaram optando pelo uso de travas de borracha nas chuteiras. Agora só restava ao Grêmio esperar as últimas horas antes da maior decisão de sua história.

 

Em jogo, o Mundial Interclubes
Capítulo 12

Depois de mais de quatro meses de preparação, vivendo 24 horas por dia com o pensamento voltado somente para uma partida, finalmente chegava a hora da grande decisão. A maior partida da história dos 80 anos do Grêmio, um clube surgido no início do século e que traçou seu caminho na base da garra, com a participação de bravos homens que não temeram as adversidades para colocar em prática o sonho de tornar o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense um dos maiores clubes do planeta.

Chegava a hora de mostrar para o mundo a grandeza de um povo. Um povo que veste azul, preto e branco e que jamais foge da batalha.

Depois de um leve café da manhã, a delegação gremista seguiu para o estádio Nacional de Tóquio, chegando no vestiário aproximadamente duas horas antes do início do jogo. A temperatura era de 5 graus e o estádio estava com seus mais de 60 mil lugares lotados.

Em Porto Alegre, o relógio se aproximava da meia noite de sábado, dia 10. A cidade estava completamente parada esperando o início da partida. Não havia uma pessoa que não estivesse na companhia de um radinho de pilha ou na frente da televisão esperando o início da transmissão ao vivo pela TV Gaúcha.

Faltando cinco minutos para o início da partida, as imagens entraram no ar, com Grêmio e Hamburgo já no gramado fazendo aquecimento para espantar o frio. O árbitro francês tomava as últimas medidas antes de apitar o início de jogo. No banco, o técnico Valdir Espinosa fumava um cigarro atrás do outro.

Os telespectadores mais observadores notaram que o Grêmio usava calção branco e meia azul, ao invés dos tradicionais calções pretos e meias brancas. A exigência partiu da Toyota, que não permitia semelhanças nos uniformes das duas equipes por causa das pessoas que recebiam as imagens em televisores em preto e branco. Como o Grêmio não havia levado meias azuis na bagagem, o pessoal da rouparia teve que correr para encontrar a peça do uniforme nas lojas de Tóquio.

Mais de 2 bilhões de pessoas recebiam as imagens da partida em todo o mundo. Para todo o Brasil, a Rede Globo trasmitia ao vivo com a narração de Galvão Bueno e comentários de Márcio Guedes. Para o Rio Grande do Sul, narração de Celestino Valenzuela com João Nassif nos comentários.

1° tempo
Depois de um minuto de silêncio, o árbitro Michel Vautrot deu início ao jogo. Saída de bola para o Hamburgo.

O jogo começou com o Grêmio nervoso, errando muitos passes. O Hamburgo, por sua vez, dominava o meio de campo mas não conseguia chegar ao gol gremista. O primeiro lance com um certo perigo foi do Hamburgo, aos 20 minutos: Magath tentou meter a bola para Hansen, que entrava pela área. De Leon se antecipou de carrinho na meia lua da grande área. A bola rebatida pelo capitão gremista explodiu no corpo de Hansen e ficou pingando na marca do pênalti. Mais esperto, Mazaropi saiu para fazer a defesa antes que o alemão conseguisse chegar.

Quatro minutos depois, Hansen desceu com a bola dominada pela direita e foi bloqueado pela zaga gremista quando tentava a conclusão, já dentro da área. A bola sobrou no outro lado para Wuttke, que tentou o arremate de longe, chutando por cima do gol, sem perigo para Mazaropi.

A primeira jogada de impacto do Grêmio ocorreu aos 31 minutos: Renato foi lançado na direita, levou a bola até o fundo de campo e fez o cruzamento. A zaga se antecipou, mandando para escanteio. Mário Sérgio cobrou o córner tentando o gol olímpico e quase surpreendeu o goleiro Stein, que deu um soco na bola mandando outra vez pela linha de fundo.

Aos 36 minutos, Tarciso foi lançado pela esquerda e ganhou o escanteio quando tentava cruzar para Osvaldo que entrava pela área. Paulo César Lima cobrou o córner, que foi afastado pela zaga alemã para a entrada da área, onde Mário Sérgio esperava o rebote. Ele pegou de primeira e quase surpreendeu Stein, mas a bola saiu muito alta.

Dois minutos depois o Grêmio chegaria ao primeiro gol. O Hamburgo tentava chegar com perigo na área gremista, mas parou em Paulo Roberto, que afastou a bola de qualquer maneira para a intermediária. Paulo César Lima dominou no peito e rapidamente lançou para Renato, na direita, puxando o contra-ataque.

Ele dominou a bola um pouco além da linha divisória do gramado e partiu em direção ao fundo de campo, sempre acompanhado de perto por Schröder, seu marcador. Em velocidade, já dentro da área, Renato ameaçou correr para fazer o cruzamento. Ao invés disso, puxou a bola de volta para seu pé esquerdo enganando o marcador. Ao ver o alemão voltar para tentar evitar o cruzamento com a esquerda, Renato puxou outra vez com a direita. Já com o marcador vencido, mas sem ângulo, ele preferiu chutar. Junto à trave, o goleiro Stein foi surpreendido pela potência do chute e não conseguiu fazer a defesa. A bola passou entre ele e o poste esquerdo. Grêmio 1 a 0!

O Hamburgo ainda teve a oportunidade de empatar nos minutos finais da primeira etapa, com uma cobrança de falta de Rolf, na entrada da área. Magath cobrou rasteiro, pelo lado da barreira, forçando Mazaropi a fazer uma grande defesa em dois tempos.

2° tempo
O Tricolor não perdeu tempo e, aos 2 minutos, já criou a oportunidade para ampliar o marcador: Mário Sérgio fez um lançamento buscando Tarciso, na esquerda, que entrava por trás da zaga. Antes dele apareceu Paulo César Magalhães completamente livre, que dominou e chutou, mesmo sem ângulo. No último momento apareceu o pé salvador de um zagueiro alemão para dividir o chute, e a bola passou à direita da meta de Stein.

O lance se repetiu cinco minutos depois: Osvaldo deu um balão afastando o perigo da área gremista e acabou armando um contra-ataque com Tarciso pela direita. Ele recebeu nas costas da zaga alemã, desceu com a bola dominada, entrou livre pela área e só não marcou porque um zagueiro apareceu no momento certo para mandar a escanteio.

Aos 12 minutos, uma jogada que poderia ter mudado a história da partida: Baidek deu um chutão pra frente, afastando o perigo da área gremista e lançando Renato na direita. O ponteiro gremista partiu pra cima do marcador, entrou na área, deu um drible de corpo, colocou a bola na frente e foi derrubado por trás por Hieronymus no momento em que poderia marcar o segundo gol. O árbitro Michel Vautrot, mau colocado, nada marcou. Uma penalidade escandalosa a favor do Grêmio.

Três minutos depois, Paulo César Lima desceu com a bola dominada pela intermediária de ataque. Com categoria, lançou Mário Sérgio que entrava pela direita, livre, se aproveitando da confusão da defesa alemã. Ao invés de chutar, ele preferiu tentar o cruzamento buscando o mesmo Paulo César que entrava pela pequena área. Antes dele apareceu novamente o pé salvador de um defensor. Stein já estava batido.

Neste momento, embora o Hamburgo dominasse o meio de campo, o Grêmio era muito mais incisivo em seus ataques. Os alemães não sabiam transformar seu domínio territorial em ataques e abusavam das bolas levantadas na área. O Grêmio, por sua vez, bem postado atrás, se limitava a dar balões pra frente buscando a velocidade de Renato ou Tarciso nos contra-ataques.

Aos 24 minutos, Espinosa tirou Paulo César Lima e colocou o atacante Caio. Dois minutos depois um dos cruzamentos para a área do Grêmio levou perigo à meta de Mazaropi. Magath cruzou da esquerda, encobrindo De Leon, e o zagueiro Jakobs arrematou de cabeça. A bola foi no ângulo direito com pouca força, forçando o goleiro Tricolor a grande defesa.

Aos 30, Stein saiu da área para tentar jogar com os pés mas acabou errando em bola e teve que fazer falta sobre Tarciso, que levava vantagem. O goleiro alemão recebeu cartão amarelo. O mesmo cartão seria apresentado a Mazaropi no minuto seguinte por retardar a cobrança de um tiro de meta.

Aos 34, Bonamigo entrou no lugar de Osvaldo. Um minuto depois, Caio desceu pela esquerda, sem marcação, e arriscou o chute, obrigando Stein a fazer grande defesa. No lance seguinte, Paulo Roberto cruzou da direita e Caio mergulhou de cabeça, mandando a bola no canto direito de Stein, que fez outra grande defesa.

Aos 40 minutos, o árbitro francês marcou um toque de mão de Bonamigo na intermediária de defesa do Grêmio. Felix Magath fez a cobrança buscando o segundo pau, onde Jakobs evitou o tiro de meta cabeçeando a bola de volta para a pequena área. A zaga gremista não conseguiu afastar e Schröder dominou e mandou para as redes, sem chance para Mazaropi. O Hamburgo chegava ao empate no finalzinho do jogo.

No desespero, o Grêmio ainda tentou a vitória no tempo regulamentar. Aos 45, Renato teve uma chance depois que De Leon ajeitou de cabeça, na entrada da pequena área. O chute de esquerda saiu errado, por sobre o gol. Foi o último lance dos 90 minutos. Ficaria tudo para a prorrogação.

Prorrogação
O intervalo foi de muito trabalho para o massagista Banha, que teve que se desdobrar para manter aquecidos os músculos de Renato e China, ambos reclamando de dores musculares. Como o técnico Valdir Espinosa já havia feito as duas substituições a que tinha direito, todos teriam que voltar para a prorrogação.

A definição da partida a favor do Tricolor não demorou para acontecer. Logo aos 3 minutos, brilhou mais uma vez a estrela do predestinado Renato. Num cruzamento da esquerda de Caio, Tarciso apenas encostou, de cabeça, a bola para o ponteiro gremista. Renato dominou de direita, cortou a marcação de Schröder e chutou rasteiro, de canhota, no canto esquerdo de Stein, que ficou sem reação.

Grêmio 2 a 1! Festa gremista em Tóquio e em todo o Brasil.

O Hamburgo partiu pra cima e quase conseguiu o empate aos 5 minutos, num escanteio cobrado por Magath. Renato tentou afastar de cabeça mas errou em bola, ela acabou batendo na cabeça de China e quase entra no seu próprio gol. Para sorte do Grêmio, ela passou por sobre a meta.

Aos 9 minutos, Renato sofreu falta ao lado da área, pela direita. Mário Sérgio se apresentou para a cobrança mas ao invés de fazer o cruzamento, como todos esperavam, tentou surpreender Stein chutando direto a gol. A bola passou perto do poste esquerdo saindo para tiro de meta. Se fosse em direção à meta, dificilmente o goleiro alemão faria a defesa.

Já nos minutos finais da primeira etapa, Renato evitou um contra-ataque do Hamburgo segurando a bola com as mãos. Recebeu cartão amarelo. Hartwig discutiu com o bandeirinha depois de ter sua cobrança de lateral revertida e também recebeu cartão amarelo.

Nos descontos, Hansen recebeu dentro da área, de costas para o gol. A marcação evitou o primeiro arremate, mas a bola sobrou para Jakobs, junto à pequena área, pela direita. Ele chutou forte, rasteiro, mas Mazaropi, bem colocado, defendeu com as pernas e evitou o empate alemão. Acabava a primeira etapa da prorrogação.

O Hamburgo parecia abatido, sem forças para tentar chegar ao empate. Os alemães faziam pressão de maneira desorganizada, no desespero, enquanto o time gaúcho continuava levando perigo nos contra-ataques. Era questão de tempo para o Grêmio comemorar.

O Tricolor ainda teve uma última chance de matar o jogo quando Caio recebeu completamente livre, na frente de Stein. Com o gol aberto, ele não teve tranqüilidade e mandou por cima. Mas o gol não fez falta.

Sem dar descontos, o árbitro Michel Vautrot apitou final de jogo em Tóquio. Renato, ajoelhado, desabou em lágrimas. Assim fizeram todos os gremistas, em todo o planeta. O Grêmio era Campeão do Mundo. O maior título que um time de futebol poderia alcançar.

Festa no Japão.

Festa no Brasil.

O planeta reverenciava o futebol do gaúcho. O capitão Hugo de Leon foi o responsável por levantar a taça do campeonato. Renato foi eleito o melhor em campo e recebeu um carro Toyota dos patrocinadores. Começava em Tóquio a festa gremista que não tinha data para terminar.

Depois de receber o troféu e as medalhas, o capitão comandou a volta olímpica pela pista atlética do estádio Nacional acompanhado pelos companheiros, diriegntes, comissão técnica e alguns torcedores que conseguiram entrar no gramado.

Os cerca de 200 torcedores brasileiros que estiveram presentes no jogo, iniciaram uma peregrinação a pé até o hotel onde a delegação estava hospedada. A festa dos jogadores continuou no vestiário, no ônibus e no saguão do hotel. De León e Renato ficaram no estádio para a entrevista coletiva. A festa seguiu durante a tarde e a noite do Japão. Em Porto Alegre, ninguém dormia mais.

 

O Rio Grande do Sul parou
Capítulo 13

O ponto de concentração da torcida gremista aconteceu na rua Érico Veríssimo, na esquina com a avenida Ipiranga, ao lado do prédio do jornal Zero Hora. A empresa disponibilizou um telão gigante para a transmissão da partida que reuniu aproximadamente 8 mil pessoas.

No Olímpico, centenas de conselheiros e familiares se reuniram no Salão Nobre do Conselho Deliberativo, enquanto outro grupo de gremistas das torcidas organizadas acompanhou em um pequeno televisor na sala do Departamento Eurico Lara.

Após o apito final, todos confraternizaram e seguiram a pé para o prédio da Zero Hora. Milhares de gremistas em todo o Estado invadiram a madrugada de domingo aos berros e buzinaços para comemorar a grande conquista.

A festa seguiu durante toda a semana até o retorno da delegação, que reuniu milhares de pessoas nas ruas da capital para acompanharem de perto o desfile do caminhão do corpo de bombeiro trazendo os campeões mundiais. Um momento inesquecível para quem vivenciou e para quem só acompanhou as imagens anos depois.

Grêmio Campeão do Mundo. Nada pode ser maior... Nem 22 anos depois.

Parabéns Grêmio.

Parabéns torcedor gremista.
 

 

FICHA DO JOGO

MUNDIAL INTERCLUBES

Estádio: Nacional
Local: Tóquio/JAP
Data: 11/12/83 Horário: 12h (Japão) - 00h (Brasil)

 

GRÊMIO (2)
HAMBURGO (1)
Mazaropi
Stein
Paulo Roberto
Wehmeyer
Baidek
Jakobs
De León
Hieronymus
P.C. Magalhães
Schröder
China
Groh
Osvaldo
Rolff
P.C. Lima
Hartwig
Renato
Magath
Tarciso
Hansen
Mário Sérgio
Wuttke
TÉCNICO
TÉCNICO
Valdir Espinosa
Ernst Happel
ÁRBITRO
Michel Vautrot (FRA)
AUXILIARES
Toshikazu Sano (JAP)
Shizuhasu Nakamichi (JAP)

GOLS
Renato (GRE - 37 do 1ºT)
Schröder (HAM - 40 do 2ºT)
Renato (GRE - 03 do 1ºT - pror.)

SUBSTITUIÇÕES - GRÊMIO
Entrou Caio, saiu Paulo César Lima (25 do 2T)
Entrou Bonamigo, saiu Osvaldo (33 do 2T)
SUBSTITUIÇÕES - HAMBURGO
Não houve

CARTÕES AMARELOS
Mazaropi, Caio, Renato e De León (GRE)
Stein (HAM)

CARTÕES VERMELHOS
Não houve

PÚBLICO
Público total: 62.000